Desde a época da minha infância eu já tinha o gosto e necessidade (relatar sobre minhas crushes sem correr o risco de ser descoberto) de escrever em cifra.
Necessidade?
Como eu ainda não sabia outro idioma e, mesmo que soubesse, não serviria ao meu propósito pois qualquer pessoa que já entendesse o idioma teria acesso aos meus segredos. Então tratei logo de usar o que eu sequer sabia o nome na época: Cifra de Substituição Monoalfabética1.
O 'A' era uma estrela, o 'B' era uma runa, o 'C' era uma lua crescente e assim sucessivamente.
Pronto, estava feito. Agora bastava copiar a tabela de substituição e passar para quem eu quisesse compartilhar os meus segredos.
Na época eu era apaixonado por uma guria mas, como eu havia me mudado de cidade, precisava enviar a carta 2 para ela junto com uma carta para a minha amiga que servia de intermediadora. Eu confiava na minha amiga? Sim. Tanto é que nós já tínhamos uma cifra só nossa, além da “língua do Pê” 3 para uso oral. Mas têm coisas que só a minha crush podia ler 4. Tudo isso num envelope escrito “CARTA SOCIAL” 5 com um selo de 1 centavo e muitas vezes envelope feito a mão.
Na última carta que recebi de minha amiga fui avisado que o nosso esquema de namoro por correspondência havia sido descoberto: ao tentar camuflar uma carta na tipóia do braço da menina, os pais dela perceberam e descobriram tudo. Bem, ao menos “as partes sensíveis” não foram decodificadas. kkkkkkkk
Desafio
Anos depois, (por volta dos 16 e 17 anos) eu recebo em casa uma carta. “REMETENTE: ADVINHA QUEM É?” Pronto, minha amiga tinha me encontrado novamente. Não me espantei pois ela havia conversado pessoalmente com meus pais num evento religioso, então provavelmente ali ela conseguiu meu endereço novo, não tenho certeza se ela enviou a carta pelos meus pais ou se pediu o endereço e enviou pelos Correios.
No final da carta havia uma mensagem cifrada à moda antiga. Logo em seguida um cliffhanger: “Vai ter que responder a essa carta para que eu possa te mandar o código e então tu entender a frase! HAHA”6
Bah, ali eu fiquei mordido. Na época eu odiava que me obrigassem a fazer algo e tinha um certo empenho em mostrar o quão inteligente eu era (pobre criatura).
Peguei um caderno e reescrevi toda a frase. Em seguida eu anotei os caracteres. Comecei a pensar num método para quebrar isso. “É pura substituição, uma troca boba. Se alguém fez isso, eu também posso fazer!” - Assim eu pensava
A tabela não deu muito certo, faltava uma parte. Agrupei as palavras e comecei a definir, utilizando a gramática portuguesa, se tal caractere poderia ser uma vogal ou consoante. Eu precisava contar que a minha amiga tivesse escrito com um português impecável, sem gírias ou erros, caso contrário haveria inconsistência no método.
Na época, meu raciocínio simples foi assim:
- Uma palavra pode começar com uma consoante, ter uma consoante logo após ou uma vogal
- Uma palavra pode começar com uma vogal, mas em seguida precisa ter uma consoante (Aarão diria o contrário, kkkk)
- Uma consoante pode vir depois duma outra consoante apenas se ela for “H, L, N, R,”
- O último caractere deve ser uma VOGAL ou uma das seguintes consoantes: “L, M, R, S, X, Z”
Para cada V/C (Vogal ou Consoante) que eu punha sob um caractere, eu precisava replicar o mesmo em todas as ocorrências para garantir a consistência e eficiência do método. Na verdade, quanto mais palavras ela tivesse escrito, mais me ajudaria a resolver.
Essas eram as regras do meu rudimentar sistema de cracking que, diga-se de passagem, teria uma certa eficiência apenas no idioma Português.
Na época eu não tinha conhecimento em ferramentas e técnicas sobre “Análise de Frequência” 7. Mas eu tinha um problema pra resolver, desejo e capacidade.
Após definir se cada caractere era uma vogal ou consoante, comecei a atribuir uma letra para cada símbolo, reescrevendo o texto e substituindo todas as correspondências do caractere: "O quadrado pode ser um 'T'"...
Vitória
Assim fui tentando até finalmente conseguir traduzir a frase.
Logo em seguida, tratei de criar o meu exemplar do dicionário de cifra e, obviamente, faltaram algumas letras.
Escrevi uma carta-resposta para minha amiga e não pude deixar de me gabar. Disse, nas suas próprias cifras, que não era necessário me enviar a tabela de respostas.
Uns dias depois eu recebo uma carta incrédula questionando como eu havia conseguido traduzir e replicar o tal código secreto.
Essa é uma dúvida que eu tenho até hoje: “o que será que a Rafa pensou sobre esse episódio?”
Aenigma solve
Notas:
- Cifra de substituição monoalfabética – Wikipédia, a enciclopédia livre Em criptografia, uma cifra de substituição monoalfabética é uma cifra de substituição onde cada letra do texto em claro é substituída por uma outra letra no texto cifrado, de forma constante.
- Quando eu digo que nasci numa época muito boa eu me refiro a isso: ter vivido o envio de cartas de papel, videogames de 4, 8 e 64 bits (depois e claro, PS1), computador offline, internet discada (apesar de nunca ter utilizado), telefones TDMA (meu primeiro celular foi um Gradiente CD 550), inclusive saudades do *3001#12345# (Field Test Mode) e agora estar vivendo coisas como I.A., R.V. (Meta Quest 3), internet.
- A “Língua do Pê” era uma forma de falar onde se isolava cada letra duma palavra e acrescentava um “P” na frente: “Tudo bem?” ficava “Pt pu pd po pb pe pm” > “Pê-tê, pê-u, pê-de, pê-o, pê-be, pê-e, pê-eme” Dificultava um pouco, mas bastava prática para conseguir entender e replicar. Fiquei sabendo que existiam variações dessa técnica, em alguns lugares, por exemplo, o “Pê” entrava no começo de cada sílaba.
- Esta parte não contribui muito para a história, é apenas uma nota curiosa sobre, nessa época, ter lidado com o problema dos generais bizantinos, MitM, criptografia e etc de forma prática na minha vida.
- Era um hack que havia aprendido com uma amiga da minha mãe, ex-funcionária dos Correios. Bastava escrever “CARTA SOCIAL” e respeitar o limite de UMA FOLHA de papel. Sim, às vezes eles pesavam o envelope. Carta Social – Wikipédia, a enciclopédia livre
- Preciso localizar a carta nas minhas coisas, pra poder escrever aqui com exatidão as palavras utilizadas.
- “Análise de frequência é um método empregado para decifrar mensagens criptografadas por meio da análise, no texto criptografado, de padrões que se repetem constantemente, que podem indicar a ocorrência de letras ou de palavras de uso corriqueiro, tais como preposições ("de", "da"), pronomes, ("não", "sim"), etc.” Análise de frequência – Wikipédia, a enciclopédia livre


