No meu ritual diário de café da manhã, meus companheiros de mesa jogavam “Lord of the Rings Risk” imaginário enquanto esperavam no Shopping. (The Big Bang Theory S08E12 @08:10) Sheldon rolou d6 5 e 3 mas, Leonard, seguidos duplos 6.
Num exercício mental, comecei a imaginar números aleatórios e fiquei de cara quando percebi escolher os números antes de “os revelar” mentalmente: o 32 apareceu algumas vezes. Então, imaginei uma espécie de roda da sorte, mas, antes da roda começar a girar, o número 27 já estava estampado.
Tirei o telefone do suporte e comecei a pesquisar sobre a capacidade humana de gerar mentalmente números aleatórios.
Máquinas
Sei que computadores não conseguem gerar números realmente aleatórios. Os algoritmos usados geram sequências de números pseudo aleatórios 1. Para números verdadeiramente aleatórios, uma fonte física externa de dados imprevisíveis como ruído atmosférico, decaimento radioativo,etc. Inclusive um projeto da CloudFlare ficou famoso há um tempo atrás por utilizar uma parede de lava-lamps 2 como gerador.
Eu tenho um projeto de gerador de entropia com uma ESP e alguns sensores: temperatura e umidade, microfone captando som do ambiente e uma câmera apontada pra natureza.
Mas nós não somos computadores, certo? Temos pensamento crítico e criativo. Mesmo a I.A. de agora que “apenas” processa grandes volumes de dados e reconhece padrões estatísticos complexos para gerar respostas e soluções. O ser humano possui desejo, afetividade, consciência da própria história em longo prazo e a habilidade de dar sentido subjetivo às experiências 3. Mas então por que é difícil escolher um número aleatório?!
Ao pesquisar, me deparei com afirmações de que é virtualmente impossível para o cérebro humano gerar aleatoriedade verdadeira 4. Ele carece de ferramentas biológicas para gerar o puro caos exigido pela verdadeira aleatoriedade. Esses estudos mostram constantemente que nós, seres humanos, somos muito ruins em escolher números aleatórios devido à tendência natural de criar padrões.
Padrões
Mas como esses padrões são criados? Nosso cérebro tende a seguir padrões, depender de hábitos e ser influenciado por vieses cognitivos, o que torna quase impossível atingirmos a total imprevisibilidade.
Economia de energia
Mesmo o nosso cérebro ocupando cerca de 2% do nosso peso, ele consome por volta de 20% de toda a energia do nosso corpo. Seria muito custoso processar o puro caos ou gerar algo inédito e desconectado de memórias. Por isso, recorrer a um padrão pré existente e metabolicamente muito mais barato. SPOILER: não é esse o motivo de trabalhos “intelectuais” ou que exigem esforço mental, serem mais cansativos que trabalhos braçais / físicos.
Heurística de disponibilidade
“Arquivista estatístico” é uma das muitas funções desempenhadas pelo cérebro e, portanto, as informações as quais formos mais expostas serão as que estarão mais acessíveis. Considerando que, na cultura ocidental, somos bombardeados com números específicos em contextos de importância (tipo 7 dias da semana, 3 em estruturas narrativas ou 10 e 100 como números redondos e divisores), esses mesmos números geralmente estão no topo desse arquivo mental, sendo os primeiros a serem escolhidos rapidamente. Pra quem lembra de Sherlock Holmes que era excelente em resolver crimes e completamente ignorante de que a Terra girava em torno do Sol 5. Não tem um “apesar de” aqui pois, justamente o ponto de manter apenas o essencial no seu “sótão mental” o ajudava com a aleatoriedade criada por um catálogo técnico rígido ao invés do usual baseado na disponibilidade emocional.
A Regra de Hebb
Ao longo da vida, as experiências, emoções e observações criam conexões físicas cerebrais (sinapses). Por isso que os números, na nossa mente, nunca são apenas um valor abstrato mas, sim, associações entre informações como datas de aniversários, placas de carro, camisas de jogador de futebol preferido, senhas, números de telefone, endereços e etc. Como que obedecendo a Lei de Ohm, a energia elétrica no nosso cérebro tende simplesmente a percorrer o caminho neural de menor resistência, ativando a tal rede associativa que estiver mais estimulada naquele momento.
Claro que há muito mais fatores e teorias do que esses três citados acima, além de, para quem acredita, ideias relacionadas até mesmo ao espiritual e ao místico.
Comecei a me questionar se as pessoas no geral aceitam cegamente a ideia do livre-arbítrio ou não percebem nossos próprios padrões subconscientes. Talvez porque a ideia de aleatoriedade de verdade quase nunca aparece no dia a dia ou simplesmente ignoram o tema.
Mas, pra mim, é um jogo frequentemente interessante refletir se minhas escolhas são mesmo minhas ou se há alguém ou algo escolhendo por mim. De qualquer forma, geralmente o resultado de escolhas individuais acabam refletindo num coletivo e causando desconfortos e conflitos. (esse é um dos pontos centrais do meu estudo sobre a Verdadeira Liberdade, porém a discussão ainda não cabe aqui))
Notas
5 - DOYLE, Arthur Conan. Um estudo em vermelho. Tradução de Maria Luiza de X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
- Geradores de números aleatórios: da pseudoaleatoriedade à verdadeira aleatoriedade na era da segunda revolução quântica Ghiglieno, Filippo, et al. "Geradores de números aleatórios: da pseudoaleatoriedade à verdadeira aleatoriedade na era da segunda revolução quântica." Revista Brasileira de Ensino de Física 47 (2025): e20240469.
- How do lava lamps help with Internet encryption? Cloudflare translates photos of 100 lava lamps into random data for use in SSL encryption.
- Humans cannot consciously generate random numbers sequences: Polemic study. Figurska, M., Stańczyk, M. and Kulesza, K., 2008. Humans cannot consciously generate random numbers sequences: Polemic study. Medical hypotheses, 70(1), pp.182-185.
